domingo, 26 de outubro de 2014

A clareza está no presente, claro!






A clareza está no presente, claro!

A clareza é um dos requisitos importantes de um texto. É preciso que as ideias estarem bem colocadas e sejam compreensíveis e que as palavras sejam conhecidas, estejam confortavelmente alinhadas, dentro de uma estrutura que faça sentido. E isso geralmente está associado a regras como:
1)   use palavras simples e coloquiais;
2)   use frases na ordem direta;
3)   hierarquize seus argumentos
4)   não se contradiga
5)   escreva uma redação higiênica, o mais limpa que puder, ou seja, capriche no visual.

Esses elementos dizem respeito à: conteúdo (ideias), ferramentas (palavras), forma (apresentação do texto). Existiria outro fator relevante para se escrever um texto claro e intelegível? Mais do que isso, atraente e instigante?
A origem de um texto limpo e inspirador não está na preparação que você pode fazer para que ele saia afiado. Está a base primeira de onde ele se origina: a sua mente. Buscar ter uma mente limpa, o mais calma e quieta possível, capaz de ordenar as ideias e controlar seus pensamentos e vulnerabilidades do passado é essencial para que a sua redação tenha, mais do que as palavras certas, uma “alma/aura” limpa. Suas ideias serão claras e sua redação será comunicativa na medida em que você focar mais no abandonado do que na acumulação, na leveza do que na consistência, na renúncia ao supérfluo do que construção de uma sólida escada de argumentos.

Vejam este texto abaixo de Ajaan Brahmavamso, intitulado “O Método Básico da Meditação”:

"Abandonar o passado significa não pensar nem sequer no seu trabalho, na sua família, nos seus compromissos, nas suas responsabilidades, na sua história, nos bons e maus momentos da sua infância ..., você abandona todas as experiências passadas ao não lhes dar atenção de forma nenhuma. Você se torna alguém desprovido de história durante o período da meditação. Você não deve nem mesmo pensar de onde veio, onde nasceu, quem são os seus pais ou que tipo de educação teve. Toda essa história é abandonada na meditação. Dessa forma, todos aqui no retiro se tornam iguais, unicamente meditadores. Deixa de ser importante quantos anos você pratica meditação, se você é experiente ou principiante. Se você abandonar toda essa história, então seremos todos iguais e livres. Estamos nos libertando daquelas preocupações, percepções e pensamentos que nos limitam e que nos impedem de desenvolver a paz que tem origem no abandono. Portanto, você finalmente se solta de todas as “partes” da sua história, até mesmo a história do que ocorreu até agora neste retiro, mesmo a recordação daquilo que aconteceu há um instante! Assim, você não carregará nenhum fardo do passado para o presente. Você não está mais interessado e abandona o que quer que tenha acabado de acontecer. Você não permite que o passado ecoe na sua mente.”

Ajan Brahmavamso é um dos grandes mestres da contemporaneidade sobre as práticas de meditação. Ele professa um tipo budismo baseado no fato que não basta um esforço muito grande para atingir estágio de iluminação e maior clareza da mente. É preciso cultivar habilidades também. Habilidades estas que vão além do exercício prático de carregar pedras até que você tenha a sua casa construída. Não! É preciso construir um caminho de modo que cada tijolo seja uma descoberta nova e um passo de libertação de tudo aquilo que nos confunde, nos turva a visão e paralisa os movimentos. É preciso abandonar o passado e renunciar ao futuro para que, como observador, você possa, no presente, encontrar não só os argumentos certos, mas uma energia equilibrada que se transporá para o papel no momento em que você precisa se expressar com plenitude. Com elegância. Com equanimidade. Ou seja, equilíbrio. Faça esse exercício: antes de qualquer produção intelectual, pratique uma meditação curta, de 5 minutos, tentando higienizar a sua mente.  Como? agarrando aos presente e à positividade. Leia mais este trecho do texto do Ajan Brahmavamso:

“Na primeira parte deste artigo tripartido, esbocei o objetivo desta meditação que é o silêncio sublime, a tranqüilidade e a clareza mental, repleto do mais profundo insight. Depois, indiquei o tema fundamental que corre como um fio contínuo ao longo de toda a meditação, que é o abandono dos fardos materiais e mentais. Por fim, na primeira parte descrevi de modo extenso a prática que conduz àquilo que chamo de primeiro estágio nesta meditação, e esse primeiro estágio é alcançado quando o meditador permanece confortavelmente no momento presente por períodos de tempo longos e ininterruptos. Tal como escrevi no artigo anterior “A realidade do agora é magnífica e impressionante ... Ao chegar até aqui, você realizou muito. Você abandonou o primeiro fardo que impede a meditação profunda.” Mas tendo alcançado tanto, você deveria ir mais além, até o ainda mais sublime e verdadeiro silêncio da mente.”

Quanto menos estímulo a sua mente tiver, mais fácil será aquietá-la. Talvez o processo de filtrar a informação seja muito mais importante do que o de agregar, o que contraria mais uma lei máxima dos cursinhos. Não leia o máximo que você puder, mas foque naquilo que realmente pode repercutir como algo “magnífico” e que “faça um pouco mais de sentido”. Como diz o monge, a “atenção também está no silêncio”, este sim cheio de significados. Escreva somente o necessário, desperto numa consciência de que você usou as palavras mais claras que poderia, porque assim está a sua mente: clara e objetiva.
Retire deste texto de Brahmavamso as âncoras que precisa para desenvolver uma boa técnica para buscar clareza e objetividade não apenas no seu texto, mas também para a sua vida. Não é que nada o perturbará, ou que o processo criativo não será, sempre, em sua gênese, algo agonizante. Mas você saberá que a consciência da busca de uma mente tranquila nesse mundo de exageros já é um caminho claro! É claro!

http://www.acessoaoinsight.net/arquivo_textos_theravada/meditacao.php



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