domingo, 30 de agosto de 2015

Quando usar vírgula e travessão - redação para concurso


Por Jairo Luis Brod

O travessão substitui a vírgula?
Sim, e também os parênteses.

Exemplo:

a) O deputado por Santa Catarina, que está em seu primeiro mandato, fez um veemente pronunciamento defendendo a suinocultura de seu estado.

b) O deputado por Santa Catarina (que está em seu primeiro mandato) fez um veemente pronunciamento defendendo a suinocultura de seu estado.

c) O deputado por Santa Catarina -- que está em seu primeiro mandato -- fez um veemente pronunciamento defendendo a suinocultura de seu estado.

Existe alguma diferença no emprego das três opções? Sim e não. Não, porque as três formas gráficas sugerem pausa na afirmação que se seguirá ao sujeito da oração. Sim, pois cada uma dessas possibilidades carreia uma carga visual e expressiva bem diferentes entre si. Analisemos cada um desses respectivos pesos, mirando a sequência do exemplo recém-dado:

a) O deputado por Santa Catarina, que está em seu primeiro mandato, fez um veemente pronunciamento defendendo a suinocultura de seu estado. A pausa é quase imperceptível, tendo em vista que em termos gráficos a vírgula é de baixa visualização, confundindo-se com o texto integral.

b) O deputado por Santa Catarina (que está em seu primeiro mandato) fez um veemente pronunciamento defendendo a suinocultura de seu estado. Os parênteses também interrompem o fluxo da afirmação precedente, facilitando, mais do que a vírgula, a leitura escorreita do que lê, seja de forma silenciosa, seja em voz alta. O aspecto negativo é a poluição visual que esse recurso causa ao texto.

c) O deputado por Santa Catarina -- que está em seu primeiro mandato -- fez um veemente pronunciamento defendendo a suinocultura de seu estado. O travessão, dos recursos de interrupção da frase, é o mais explícito dos três, assegurando ampla repartição e melhor compreensão do segmento.

Outros exemplos:

a) A guerra civil sem tréguas que devasta a Síria, agravada dia a dia pela insensibilidade da comunidade internacional, já fez com que cerca de 3 milhões de refugiados procurassem abrigo em outros países.

b) A guerra civil sem tréguas que devasta a Síria (agravada dia a dia pela insensibilidade da comunidade internacional) já fez com que cerca de 3 milhões de refugiados procurassem abrigo em outros países.

c) A guerra civil sem tréguas que devasta a Síria -- agravada dia a dia pela insensibilidade da comunidade internacional -- já fez com que cerca de 3 milhões de refugiados procurassem abrigo em outros países.

Cabe vírgula depois de travessão? Ou este encampa aquele?
Sim, há casos em que a vírgula se faz necessária, e em outros, não – como no exemplo utilizado no item 1 acima. Nestes casos, o travessão substitui a vírgula. Em suma: usa-se a vírgula após o travessão quando a construção sintática englobar situações distintas.

Exemplos:

a) Ainda que a Seleção Brasileira esteja posicionada em quarto lugar como potência do futebol – segundo o mais recente ranking da Fifa --, a verdade é que nosso futebol já não encanta nem o mais fanático dos torcedores brasileiros.

Neste exemplo, os travessões marcaram o início e o fim do aposto (expressão explicativa da oração que o antecede), e a vírgula depois do segundo travessão marca o término da oração subordinada adverbial concessiva.

b) Tendo em vista que as oposições unificaram seu discurso no Parlamento Nacional – em maior grau na Câmara dos Deputados e em menor proporção no Senado Federal --, carece agora de fundamento a afirmação de que a imprensa constitui hoje voz solitária na defesa do pontos de vista que contradigam o Palácio do Planalto.

A oração explicativa foi interrompida pelo comentário adicional (um aposto) "em maior grau na Câmara dos Deputados e em menor proporção no Senado Federal", devendo, por isso, ser assinalada no texto por travessões. Na sequência, cabe uma vírgula depois do segundo travessão em função de ter que se especificar o final da oração explicativa que inicia todo o período. Reforçando, então: travessões para conter o aposto e vírgula para finalizar a oração explicativa.

Outros exemplos:

Apesar de os municípios constituírem o lócus em que as relações sociais e laborais de fato ocorrem – a União e os estados são entidades vaporosas que pertencem ao reino da abstração --, são eles que percebem a menor fatia dos recursos advindos do Imposto de Renda e do Imposto sobre Produtos Industrializados.

Se as previsões da expectativa média de vida do brasileiro se confirmarem até 2030 – estudos oficiais estimam que os homens viverão naquela década em média 81 anos e as mulheres, 84 anos --, o atual Sistema Geral de Previdência Social terá que ser remodelado o mais rapidamente possível.

Todavia, não haverá vírgula depois do segundo travessão quando não houver nenhum incidente linguístico que interrompa o ritmo com que foi iniciado o período.

Exemplo:

Comer frutas e verduras variadas – segundo a Organização Mundial da Saúde – é um dos pressupostos básicos para a boa alimentação em todas as idades.

Nesse caso não cabe a concomitância do segundo travessão com a vírgula, tendo em vista que os travessões dão conta de dar legibilidade à frase. A vírgula é proibida, uma vez que, abstraindo-se a expressão adverbial conformativa "segundo a Organização Mundial de Saúde", teremos um sujeito oracional ("Comer frutas e verduras variadas") ligado diretamente ao seu predicado ("é um dos pressupostos básicos para a boa alimentação em todas as idades."). E como se sabe, é pecado mortal separar o sujeito de seu predicado.

Outros exemplos:

O Uruguai – uma pequena nação de menos de 4 milhões de almas – é uma potência futebolística comparável a países que têm 20 vezes mais habitantes do que nossos politizados, cultos e habilidosos vizinhos.

Não se pode dizer – nem mesmo em tom de brincadeira – que Millôr Fernandes não tenha sido também um grande filósofo.

Um homem sem hobbies – que seja o simples ato de fotografar a Natureza – tende a extravasar suas frustrações em momentos socialmente inadequados.